Há anos as mães de Bragança por causa de umas meninas atrevidas que punham em risco os bons costumes e a unidade familiar puseram em pé de guerra a pacata cidade transmontana. Segundo os relatos da época, umas meninas de vida fácil estariam a desviar os pais e também maridos da sua tradicional missão de exemplos de bom comportamento para as gerações vindouras.
Essa, pelos vistos, justa luta das abnegadas mães, parece ter dado bons frutos. Alguns anos depois, salva a moral e retornados os desviantes pais de uma vida pecaminosa, Bragança surge nos ecrãs televisivos como um exemplo de sucesso. Seis meninas de uma turma do 12.º ano entraram no Curso de Medicina com médias superiores a dezanove, fruto sem dúvida, segundo os testemunhos, de muito empenho, dedicação, esforço, entreajuda e solidariedade, para além das capacidades intrínsecas
.
Estas meninas,futuras médicas, futuras mães, são um exemplo de que no interior deste rectângulo europeu existem mais- valias e massa critica como costumam dizer os entendidos. É a melhor prova de que não é fechando escolas nos meios rurais ou criando mega agrupamentos que se aproveitam as sinergias existentes. Não é pondo toda a população à beira mar que se constrói um pais equilibrado. Esta básica capacidade de percepção parece não residir infelizmente na mente da classe política que nos desgoverna. Tenhamos esperança que estas meninas de Bragança ou de outros locais perdidos, consigam mudar este país e renovar as mentalidades, para que haja igualdade entre todos ,incluindo as cidadãs escorraçadas em nome dos bons costumes. Bons costumes são o respeito pelas diferenças e pela liberdade de cada um. E ressalvando a exploração imanente, sempre condenável, essa liberdade tem de ser um valor universal. Em Bragança ou em Cabul.
Mateus
quinta-feira, 23 de setembro de 2010
quinta-feira, 16 de setembro de 2010
Mulher nua
Não há pior dia que a segunda-feira. Depois de um dia de descanso o trabalho. Mas eu gosto de fazer segunda de sapateiro ou seja dar folga às solas. Nestes entretantos sobrou-me em indolência o que me faltou em insolência. Fica para um dia mais preenchido. Mas nesta lazeira sapateiral vieram-me à memória os gloriosos tempos do Processo Revolucionário em Curso. Aquilo é que era alegria, aquilo é que era esperança, aquilo é que era sonho, aquilo é que era generosidade; aquilo é que era ilusão. E prefiro mil vezes essa iludida ilusão que esta ilusão iludida do nosso prestigiditador-mor. Adiante: no meio deste emanrahado de pensamentos gastos pelo tempo e pela mediocridade, saltou-me das profundezas do arquivo mental um poema pouco conhecido do Zeca e que simboliza esses tempos de ingenuidade revolucionária. Chama-se Teresa Torga. Se conhece recorde-o. Se não conhece vale a pena conhecer:
MG
"TERESA TORGA"
No centro da Avenida
No cruzamento da rua
Às quatro em ponto perdida
Dançava uma mulher nua
A gente que via a cena
Correu para junto dela
No intuito de vesti-la
Mas surge António Capela
Que aproveitando a barbuda
Só pensa em fotografá-la
Mulher na democracia
Não é biombo de sala
Dizem que se chama Teresa
Seu nome é Teresa Torga
Muda o pick-up em Benfica
Atura a malta da borga
Aluga quartos de casa
Mas já foi primeira estrela
Agora é modelo à força
Que a diga António Capela
Teresa Torga Teresa Torga
Vencida numa fornalha
Não há bandeira sem luta
Não há luta sem batalha
José Afonso
MG
"TERESA TORGA"
No centro da Avenida
No cruzamento da rua
Às quatro em ponto perdida
Dançava uma mulher nua
A gente que via a cena
Correu para junto dela
No intuito de vesti-la
Mas surge António Capela
Que aproveitando a barbuda
Só pensa em fotografá-la
Mulher na democracia
Não é biombo de sala
Dizem que se chama Teresa
Seu nome é Teresa Torga
Muda o pick-up em Benfica
Atura a malta da borga
Aluga quartos de casa
Mas já foi primeira estrela
Agora é modelo à força
Que a diga António Capela
Teresa Torga Teresa Torga
Vencida numa fornalha
Não há bandeira sem luta
Não há luta sem batalha
José Afonso
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quarta-feira, 8 de setembro de 2010
A minha aldeia
Nasci e cresci numa aldeia. Era uma aldeia parecida com tantos outras. Era uma aldeia cheia de gente e de vida. Gente simples, gente modesta, gente feliz. O trabalho era o lema do dia a dia. Mas num quotidiano de trabalho duro havia sempre tempo para conviver de forma singela e saudável. A convivência aprendia-se na família e continuava na escola. A escola ainda separada por sexos fervilhava de vida, de alegria de entusiasmo. A escola era a imagem de uma comunidade cheia de vitalidade.
Nos anos sessenta um processo tardio e desregulado de desenvolvimento começou a destruir a minha aldeia. A emigração e a migração começaram
a levar pessoas para horizontes mais promissores. A aldeia foi-se despovoando. Apenas ficaram alguns resistentes, fiéis, quase religiosos da agricultura de subsistência. A Comunidade Europeia destruiu o que restava das actividades tradicionais. Os mais idosos foram desaparecendo. Para os mais novos a alternativa é migrar. Mas há alguns que continuam a resistir. Merecem ser apoiados, pois são a esperança que resta para que a aldeia sobreviva. E pode sê-lo se houver vontade política de vistas largas, de desconcentração, de reordenamento, de regresso ao passado mas com futuro. A minha aldeia , que são todas as aldeias, pode voltar a ser um lugar de vida plena.
Nos anos sessenta um processo tardio e desregulado de desenvolvimento começou a destruir a minha aldeia. A emigração e a migração começaram
a levar pessoas para horizontes mais promissores. A aldeia foi-se despovoando. Apenas ficaram alguns resistentes, fiéis, quase religiosos da agricultura de subsistência. A Comunidade Europeia destruiu o que restava das actividades tradicionais. Os mais idosos foram desaparecendo. Para os mais novos a alternativa é migrar. Mas há alguns que continuam a resistir. Merecem ser apoiados, pois são a esperança que resta para que a aldeia sobreviva. E pode sê-lo se houver vontade política de vistas largas, de desconcentração, de reordenamento, de regresso ao passado mas com futuro. A minha aldeia , que são todas as aldeias, pode voltar a ser um lugar de vida plena.
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