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domingo, 3 de outubro de 2010

Professor obviamente

O Senhor Simplício foi professor. Tinha uma pequena escola numa aldeia da serra do sotavento algarvio. Nos exames nacionais no Liceu de Faro, os seus alunos tinham a fama e o proveito de serem os melhor preparados.

Foi seminarista, mas outros valores, desviaram-no da carreira, religiosa. Consta que durante a juventude, andava pelos bailes e feiras, cantando as suas desventuras amorosas acompanhado do seu bandolim, de que era exímio executante…

Por causa dela,

Mas só por causa dela,

Meu coração bateu tanto

Que partiu uma costela...

Nunca casou e quando o conheci já sexagenário, vivia na casa de uma recatada senhora, onde também usava uma sala para dar as aulas. Não percebi se era apenas hóspede ou algo mais, mas isso, também não interessa.

Um dia a meio da aula da manhã, mandou-nos sair para irmos ver, na estrada que atravessava a povoação, a caravana do General Humberto Delgado, em campanha contra o regime salazarista. Foi assim que pude ver a silhueta do general sem medo, que nos acenou detrás da janela de um carro que passou sem parar, rumo a sítios mais povoados. Dessa experiência guardo ainda viva memória.

O senhor Simplício ensinou-me a gostar de aprender, sem nunca cobrar um cêntimo à minha família, devido às nossas dificuldades. Morreu como nasceu, simples cidadão anónimo, mas deixou, de forma, discreta, uma marca bem vincada naquilo que é mais duradouro.. a formação de cidadania

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Mães de Bragança

Há anos as mães de Bragança por causa de umas meninas atrevidas que punham em risco os bons costumes e a unidade familiar puseram em pé de guerra a pacata cidade transmontana. Segundo os relatos da época, umas meninas de vida fácil estariam a desviar os pais e também maridos da sua tradicional missão de exemplos de bom comportamento para as gerações vindouras.



Essa, pelos vistos, justa luta das abnegadas mães, parece ter dado bons frutos. Alguns anos depois, salva a moral e retornados os desviantes pais de uma vida pecaminosa, Bragança surge nos ecrãs televisivos como um exemplo de sucesso. Seis meninas de uma turma do 12.º ano entraram no Curso de Medicina com médias superiores a dezanove, fruto sem dúvida, segundo os testemunhos, de muito empenho, dedicação, esforço, entreajuda e solidariedade, para além das capacidades intrínsecas

.

Estas meninas,futuras médicas, futuras mães, são um exemplo de que no interior deste rectângulo europeu existem mais- valias e massa critica como costumam dizer os entendidos. É a melhor prova de que não é fechando escolas nos meios rurais ou criando mega agrupamentos que se aproveitam as sinergias existentes. Não é pondo toda a população à beira mar que se constrói um pais equilibrado. Esta básica capacidade de percepção parece não residir infelizmente na mente da classe política que nos desgoverna. Tenhamos esperança que estas meninas de Bragança ou de outros locais perdidos, consigam mudar este país e renovar as mentalidades, para que haja igualdade entre todos ,incluindo as cidadãs escorraçadas em nome dos bons costumes. Bons costumes são o respeito pelas diferenças e pela liberdade de cada um. E ressalvando a exploração imanente, sempre condenável, essa liberdade tem de ser um valor universal. Em Bragança ou em Cabul.

Mateus

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Mulher nua

Não há pior dia que a segunda-feira. Depois de um dia de descanso o trabalho. Mas eu gosto de fazer segunda de sapateiro ou seja dar folga às solas. Nestes entretantos sobrou-me em indolência o que me faltou em insolência. Fica para um dia mais preenchido. Mas nesta lazeira sapateiral vieram-me à memória os gloriosos tempos do Processo Revolucionário em Curso. Aquilo é que era alegria, aquilo é que era esperança, aquilo é que era sonho, aquilo é que era generosidade; aquilo é que era ilusão. E prefiro mil vezes essa iludida ilusão que esta ilusão iludida do nosso prestigiditador-mor. Adiante: no meio deste emanrahado de pensamentos gastos pelo tempo e pela mediocridade, saltou-me das profundezas do arquivo mental um poema pouco conhecido do Zeca e que simboliza esses tempos de ingenuidade revolucionária. Chama-se Teresa Torga. Se conhece recorde-o. Se não conhece vale a pena conhecer:



MG



"TERESA TORGA"

No centro da Avenida
No cruzamento da rua
Às quatro em ponto perdida
Dançava uma mulher nua

A gente que via a cena
Correu para junto dela
No intuito de vesti-la
Mas surge António Capela

Que aproveitando a barbuda
Só pensa em fotografá-la
Mulher na democracia
Não é biombo de sala

Dizem que se chama Teresa
Seu nome é Teresa Torga
Muda o pick-up em Benfica
Atura a malta da borga

Aluga quartos de casa
Mas já foi primeira estrela
Agora é modelo à força
Que a diga António Capela

Teresa Torga Teresa Torga
Vencida numa fornalha
Não há bandeira sem luta
Não há luta sem batalha



José Afonso

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

A minha aldeia

Nasci e cresci numa aldeia. Era uma aldeia parecida com tantos outras. Era uma aldeia cheia de gente e de vida. Gente simples, gente modesta, gente feliz. O trabalho era o lema do dia a dia. Mas num quotidiano de trabalho duro havia sempre tempo para conviver de forma singela e saudável. A convivência aprendia-se na família e continuava na escola. A escola ainda separada por sexos fervilhava de vida, de alegria de entusiasmo. A escola era a imagem de uma comunidade cheia de vitalidade.
Nos anos sessenta um processo tardio e desregulado de desenvolvimento começou a destruir a minha aldeia. A emigração e a migração começaram
a levar pessoas para horizontes mais promissores. A aldeia foi-se despovoando. Apenas ficaram alguns resistentes, fiéis, quase religiosos da agricultura de subsistência. A Comunidade Europeia destruiu o que restava das actividades tradicionais. Os mais idosos foram desaparecendo. Para os mais novos a alternativa é migrar. Mas há alguns que continuam a resistir. Merecem ser apoiados, pois são a esperança que resta para que a aldeia sobreviva. E pode sê-lo se houver vontade política de vistas largas, de desconcentração, de reordenamento, de regresso ao passado mas com futuro. A minha aldeia , que são todas as aldeias, pode voltar a ser um lugar de vida plena.

sexta-feira, 7 de maio de 2010

60 anos de direitos humanos

No dia 7 de Maio de 1945 a Alemanha capitula. Era o fim do pesadelo Nazi que ensombrou a Europa durante seis anos. Era o fim da segunda Guerra Mundial.A liberdade venceu o totalitarismo. A Europa renasceu das cinzas e reconstrui-se como um espaço de progresso de democracia e de tolerância.Resistiu ao avanço do totalitarismo comunista e uniu-se em torno de um projecto económico comum e de uma sociedade de bem-estar. Depois de passar por duas guerras terríveis e devastadoras, a Europa percebeu finalmente que o seu caminho é a paz.

As Cassandra da desgraça, a propósito de uma crise especulativa, já andam a escrever-lhe o epitáfio. Lamento dizer-lhes que estão muito enganados. O que a história nos mostra é que este espaço geográfico tem sido sujeito às mais variadas vicissitudes e que sempre as tem ultrapassado .Irá ultrapassar mais esta e continuar a ser o grande espaço de referência civilizacionaldo planeta terra.Precisa de fazer correcções na sua rota? Concerteza que sim. Precisa de alterar alguns paradigmas? É fundamental abandonar nacionalismos bacocos, egoísmos paralisantes. Tem de avançar para um sistema político mais integrado e eficaz. Apesar das resistências e do irracionalismo em que se apoia o cepticismo, mais cedo ou mais tarde essa batalha será ganha. A civilização europeia tem passado, tem presente e tem futuro.

Eu sou um optimista por natureza e como o filósofo Condorcet , acredito no progresso contínuo da humanidade. Por isso quando vejo no meu país as pretensos gurus da sabedoria, aves agoirentas da desgraça, sob a capa diáfana do realismo, decretar a inviabilidade desta nação, tenho pena deles. Ou falam condicionados por ódios pessoais ou por um total desconhecimento da evolução histórica. Desconhecem que Portugal nasceu de um parto difícil e poucos acreditaram que iria sobreviver, mas sobreviveu. Muitos outros julgaram que não iria sobreviver a Aljubarrota, na sua adolescência, mas sobreviveu. Os velhos do Restelo diziam que não havia recursos para fazer o descobrimentos, mas fizeram-se. No século XIX vozes pessimistas peroravam contra os caminhos de ferro e fizeram-se. E muitos exemplos se podiam invocar.

As Cassandras da desgraça, em Portugal, investem contra as obras públicas. São os seus moinhos de vento. Consideram-se génios e gurus da verdade. Para eles todos os políticos, são medíocres e corruptos.Acontece que alguns, também políticos, já tiveram responsabilidades governativas e não se lhes conhece, nesse âmbito, nenhum rasgo de genialidade. Dizem que não há dinheiro para investir e é preciso esperar, ficar quietinho. Mas caem numa contradição:se não se investe, não se produz, se não se produz não há riqueza , se não há riqueza não se pode investir. Como saem desta paradoxo? Com este tipo de raciocínio, recorrente em Portugal, não seríamos um país, nunca teríamos sido uma nação.

Somos uma nação por que D. Afonso Henriques, com poucos recursos, acreditou.D.Nuno Álvares Pereira, com reduzidos meios teimou. D.Henrique, D. João I, D. João II, D. Manuel, sonharam. Os conjurados de 1640 ousaram. A construção de um país não pode estar dependente de mentalidades tacanhas e obsoletas. A continuação de uma nação faz-se com realismo, mas também com risco, com ousadia, com coragem. É essa a matriz de Portugal . E é com essa matriz que Portugal é viável, no contexto europeu e no contexto ultramarino.

sábado, 17 de abril de 2010

Dança de danados com cadeiras



Manhã
Aquele sábado de fim de primavera amanhecera escuro e chuvoso. Parecia que o céu, com o seu cortejo de nuvens prenhes como odres, se ia abater sobre a terra seca e faminta de água. Às oito da manhã nasci da cama com os primeiros raios de sol que se esparramavam pelas frinchas das janelas sem as lentes de vidro que nos protegiam dos ataques do suão sibilante. Procurando esconder-me entre os xarogaços raquítios para não ser visto por algum fedelho que me atazanasse com a minha inapropriada alcunha “ eh gato”, desci com todas as pernas que pude arranjar a íngreme vereda que separava a casa dos meus avós, onde tinha cama, comida e roupa lavada . Dirigi-me como uma bola saltitante para a casa dos meus atarefados pais para não me esquecer que eles continuavam a fazer peso na face enlameada da terrra. Ia a meio do sinuoso percurso, cantarolando a canção, então em voga “só às paredes confesso”quando se abateu sobre os meus ombros de pardal mal alimentado uma carga de água de pedra, que me molhou que nem um pinto , mais assustado que galinha visitada por raposa. Nunca tinha visto ou imaginado uma coisa assim. Até pensei que aquela fosse um principio do apocalipse, de que a jovem Célia, branca e pura como as imagens de madeira e tinta dos altares, falava com a sua boca decorada com um excitante tufo de pelos ruços, nas sessões de catequese, entre a missa dominical e o namorico com João Sapateiro.
O certo é que o esgarrão da minha angústia foi tão depressa quanto veio. As nuvens barrigudas como barriga de burra prenha sumiram como o joio pelos buracos de uma peneira , escampou, e um sol brilhante como o pitromax da venda do senhor joão iluminou as pitorescas casas da aldeia.
Dirigi-me , com a dignidade de Zapata diplomático para a casa do meu primo Ricardo, dois anos mais novo, com quem dividia as brincadeiras de infância. Quando as águas do dilúvio libertaram as margens dos caminhos sinuosos e formaram caudalosos riachos de água e lama comecei a engendrar barragens que os impedissem de se instalar no aconchegante leito da ribeira. Ricardo transportava nas suas mãos sapudas de eventual cavador as pedras com que iria construir a sua vida sem futuro e eu juntava lama para cimentar a nossa inocência campónia. E enquanto víamos o pequeno riacho deslizar das nossas mãos como cobra de água, ouviu-se de repente o ronco de um altifalante de muitos decibéis, que silenciou a melodia produzida pela água no seu contacto, ora brusco ora acariciante, com as pedras e a terra por onde deslizava, não segura, em direcção à ribeira.” De quem eu gosto, nem às paredes confesso…”: Tinha chegado à aldeia o cinema ambulante.
Uma alegria rara e pouco frequente fez-me estremecer como se tivesse sido vergastado por uma vara de zambujeiro verde. Deitei fora os bocados de lama que segurava nas mãos, esqueci-me do quotidiano salazarento, das reguadas diárias na escola do estado novo e do meu utilitário primo. Sabia que nessa noite iria assistir, no salão de bailes do senhor Armando, a uma sessão de imagens animadas com os meus avós que eram cinéfilos de boa cepa. A mesma alegria não contagiou o meu primo Ricardo. A sua família não era gente desses pequenos luxos no seu mourejar diário por uma côdea de pão.
Tarde
. Na camioneta da tarde que todos os dias trazia alguma ausência e levava alguma saudade, desembarcou a tia Susana e seus dois moços pequenos. Raramente visitavam a família na aldeia.
Viviam longe, lá para a lezíria do Tejo, onde mourejavam pelo pão nosso de cada dia, como tordos que batalhavam para roubar uns grãos aos espantalhos que guardavam as searas do pai. Na casa dos avós houve muita satisfação. Matou-se um galo capão e a avó, cozinheira sem escola mas com tarimba, fez um suculento arroz de cabidela. O avô, abalizado bebedor nas vendas da aldeia, fez questão de regar o jantar com um forte vinho caseiro, guardado para ocasiões tão especiais como o nascimento de um bezerro de vaca leiteira. Depois de enganado o estômago o avô disse:
-Está na hora de irmos ao cinema. Já fui pôr as cadeiras no melhor lugar do salão do senhor Armando. Os dois aparvalhados primos maternos, não disfarçaram a seu contentamento e como barbos saltitantes no cesto da pescaria lá foram estrada fora com o cortejo familiar rumo ao mundo das ilusões perdidas.
Noite
. O pequeno gerador que dava luz à máquina de produzir ilusões fazia-se ouvir entre os sussurros dos ansiosos assistentes. Lobo Antunes, o projeccionista remendava uma fita que se partira durante a rebobinagem. Os moços pequenos que os pais tinham soltado, como pardal que dera a monte, acomodavam-se no chão sujo e frio, à frente da primeira fila de cadeiras.Robim dos Bosques, o Herói desse dia preparava-se para entrar em acção, com o seu bando de ladrões que só roubava aos ricos mas que não deixava por isso de ser ladrão.Ao dirigir-se ao local onde havia plantado as cadeiras o avô verificou que uma delas tinha fugido do seu lugar, encostando-se a uma parede da sala. No seu lugar, outra cadeira, coisa estranha, suportava o rabo mirrado, como azeitonas de sal ,do José Carola, agricultor, dono de cavalo de cobrição e ferrador da aldeia. O avô , que fervia em pouca água, avançou para o Carola, como besta picada pela mosca.
- Ó seu grande cabrão, então você roubou-me o lugar?!
-Não roubei lugar nenhum, disse o Carola mais atarantado que burra assustada com a ferramenta do cavalo cobridor. Este lugar estava virgem quando eu cheguei.
- Acha-me com cara de tanso, é? A minha cadeira já aí estava , e embora tenha pernas, ainda não sabe andar- retorquiu o avô. Levante-se e retire o cu dessa cadeira nojenta ou racho-o já ao meio.O Robim já cavalgava pela densa floresta, o João Pequeno atirava dez soldados e o sherif com as suas cavalgaduras por um barranco abaixo. Menina Mariana estava na janela do castelo em estilo carochinha sabidona “Quem me quer tirar daqui, nem que seja para uma união de facto”.
O Carola continuou colado ao seu assento, desafiador e confiante na sua razão, mas pouco tempo esteve de pé, pois o avô assentou-lhe a mão sapuda no focinho, dando-lhe uma chapada , que o fez estatelar-se da sua cadeira, derrubando como pedras de dominó, alguns espantados e incautos espectadores, no lugar errado à hora errada.O Robim talvez com fome de mulher aventura-se, é esse afinal o seu papel, no castelo com Mariana à janela, mas é barrado pelo malvado xerif. Robim , num daqueles truques que se aprendem no cinema, atinge-o bem entre as pernas: -Toma cão danado - embora o uivo do infeliz, mais parecesse de lobo que de cão ao mesmo tempo que piscava o olho triunfante ao avô.
O Carola, ainda só pai de filharada ranhosa, alto espadaúdo e seco de carnes levanta-se tão rápido quanto permite a lei da gravidade, agarra o avô, bem mais portátil, pelo colarinho da camisa, que se desfez em pedaços, como cantarinha de barro a estatelar-se no chãoO João Pequeno, que afinal até é grande, entra com o seu bando num solar de um titular amarra-o aos pés da cama e saca-lhe as economias escondidas no colchão de penas, o que não deixa de ser uma boa acção, porque o povo está esfomeado de comida e de justiça.
O avô escapa das mãos calejadas do ferrador, agarra uma cadeira e enfia-lha desde o poiso dos piolhos até à arrecadação dos chatos. Outros espectadores são envolvidos no reboliço e rebolam, nas suas cadeiras desengonçadas. Os meus primos olham espantados e a sua mãe ,mais angustiada que peru na véspera de natal está desolada. Já a prima, perdeu o casaco na confusão e chora baba e ranho, como é próprio da sua idade.Os soldados do xerife atiram Robim para o fosso do castelo e este depois de rebolar mais de dez metros levanta-se mais fresco que uma alface na brisa matinal. Mariana que assiste à cena de camarote deixa fugir uma lágrima furtiva.
De repente a fita parte-se e a sala fica mergulhada na escuridão. De repente a pancadaria pára e as pessoas procuram acomodar-se nos seus lugares. As lâmpadas acendem as suas íris incandescentes- INTERVALO- e o projeccionista Lobo Antunes remenda a história e procura remediar os estragos. José Carola volta a acomodar-se no seu lugar, mais amachucado que talega de azeite na prensa. O avô recusa-se a mudar e, espumando de raiva, assiste à sessão de pé, funde-se na parede da sala, evapora-se numa nuvem de indiferença. A avó, a tia e os primos, esperam receosos pelo fim da aventura.As imagens de sombra e luz voltam a ganhar vida na parede branca do fundo da sala. Continuam as cavalgadas, as espadeiradas, as emboscadas, os suspiros de Mariana, o castigo dos apoiantes do rei João…THE END.
A ilusão chegou ao fim. Ordeiramente os espectadores abandonam a sala, carregando as suas cadeiras de sofrimento e vazio sem ilusões perdidas ou renascidas. Entre o burburinho da saída e o barulho do dínamo, o projeccionista, Lobo Antunes , rebobina o filme e murmura para o fuinha de cigarro apagado ao canto da boca desdentada e que o ajudava a desmontar a máquina que fabricava imagens na solidão do escuro:
-Estes cabrões são uns selvagens…Aproveitaram o facto de eu tirar a cadeira para colocar o altifalante, para perturbarem o meu espectáculo. Não volto a esta terra de merda e de miseráveis brigões.O magricela enrolava os últimos fios e estendia no chão duro de ladrilhos a manta onde havia de passar a noite com o cigarro apagado a saltitar no som dos seus roncos sibilantes. Robim no sossego do celuloide foi finalmente descansar. Amanhã é outro dia. Na cama ao lado de Mariana como um irmão bem comportado dorme a sono solto. FIM

Crónica de um enxovalho anunciado

Crónica de um enxovalho anunciado

No dia em que o iam enxovalhar Donjoão Estevens levantou-se como sempre às seis da manhã, vestiu a sua farda de caqui de cabo dos cantoneiros e dirigiu-se à cozinha onde a sua fiel mulher Perpétua já lhe preparara um quente café de cevada, a que sempre juntava umas sopas de pão trigo.

Acabada esta frugal refeição matinal, Donjoão verificou o estado da sua bicicleta. Despediu-se da mulher com um até logo sussurrado para não acordar os filhos que ainda dormiam o sono dos inocentes. Perpétua pediu-lhe como sempre que tivesse cuidado e recolheu-se à sua vida doméstica de esposa dedicada e mãe extremosa, capaz de calar e sofrer em silêncio a existência da outra, da puta como dizia de si para si, que com ela partilhava o corpo atlético do pai dos seus filhos.

Enquanto pedalava a sua bicicleta pela sinuosa estrada da serra, num sobe e desce carrocélico que parecia não ter fim, até chegar ao local onde os seus homens arranjavam as bermas ou remendavam o áspero alcatrão, Donjoão pensava em Rosaflor e no seu cheiro a urze brava.

No dia em que iam ser enxovalhados, Rosaflor dedicada e extremosa mãe solteira levantou-se aos primeiros raios de sol para preparar um almoço bem condimentado para o homem que dividia com a outra, a legítima e imaculada esposa. Acordou o filho sem pai e aviou-lhe a merenda que havia de levar para a escola da aldeia. Pôs um xaile nos ombros e dirigiu-se à venda do João Cabreiro. Enquanto fazia deslizar o seu corpo roliço pelas poeirentas ruas do monte pensava em Donjoão e um cheiro a forte a eucalipto perturbou-lhe os sentidos. Quando entrou na venda Já alguns madrugadores sugavam de funílicos copos o mata-bicho matinal.

- Senhor João pode aviar-me um litro de vinho - disse entre-dentes

João pegou no garrafão de palhinha que despejou numa medida de lata, devidamente aferida, enquanto Rosaflor tirava, sorrateiramente de debaixo do avental de chita uma garrafa que deu a o senhor João para depositar o tinto da sua ignomínia.

- Ponha na conta, se não se importa

-Sim, ti Rosaflor -respondeu o vendeiro - mas tenha cuidado, não exagere que esse pode trazer-lhe problemas.

Os devoradores de aguardente, olharam de soslaio para Rosaflor, enquanto aspiravam pelas goelas sequiosas o último gole do matinal mata-bicho. Num canto escuso, Gabriel G. Marques, meio irmão de Rosaflor por parte de pai, capador de porcos, vendedor de literatura de cordel e grande contador de histórias , disse para quem teve ouvidos para ouvir.

-Hoje vou xaringar esse filho de cabra mal parida. Vou tirar-lhos da gaiola – rosnava ao mesmo tempo que limpava na perna das calças a sua faca de contracepção por método natural.

-Não podes fazer isso no dia em vamos ser visitados pelo nosso Presidente. É uma desonra para toda a gente honesta e laboriosa da nossa aldeia - retorquiu João Cabreira.

Gabriel G. Marques, meio atarantado e algo titubeante pareceu recuar na sua intenção de vingar a honra da família, mas depressa se recompôs e qual vítima acossada das suas histórias, argumentou com toda a prosápia:

-Vou respeitar a presença de sua Excelência, o mais alto magistrado desta nação nobre e valente, mas quando ele se retirar para o seu palácio, acabo com a futura descendência daquele cão danado.

Rosaflor trabalhava na casa de um lavrador para poder criar o filho. Nunca se soube quem a emprenhou quando era ainda muito jovem. Dizia-se que um forasteiro a tinha seduzido num baile de fim das colheitas. Havia quem os tivesse visto sair afogueados a meio da noite, vendo-os desaparecer por entre as estevas. Havia quem jurasse a pés juntos que fora o filho do lavrador onde ia sempre fazer a monda, afirmado que numa manhã fresca de Primavera este lhe tirara a honra no meio dos trigais. Mas a verdade, ninguém a sabia.

No dia do seu suplício Donjoão reuniu os cantoneiros de diversos cantões para fazer uma limpeza geral da estrada sob sua jurisdição. Sua Excelência o senhor Presidente da República ia utilizá-la para fazer uma visita ao bom povo português das terras esquecidas.

Acabado o trabalho, os cantoneiros pegaram nas suas ferramentas e dirigiram-se para junto da povoação a fim de aclamar sua Excelência. Quando avistaram as primeiras casas já uma pequena multidão se acotovelava para conseguir o melhor lugar. À frente do povo, nas suas melhores vestes domingueiras, estavam o presidente da junta e o senhor Regedor: Os cantoneiros sob o comando do seu cabo, perfilaram-se na berma para com as pás e as picaretas, à falta de melhor material, para fazerem a guarda de honra.Com ar carrancudo e um pouco comprometido chegou Gabriel G. Marques . Todos os olhos se viraram e reviraram para o infeliz cabo Estevens. O povo cheirava caso, e esperava mudo, o desenlace da tensão. Mas de repente, surgiram na curva da estrada, os primeiros carros da comitiva Presidencial e todos se perfilaram para receber o senhor Almirante. Os carros abrandaram, mas continuaram serenamente a sua marcha. Numa janela, um senhor sem cabelo e vestido de marinheiro, esboçou um sorriso na cara de pau e acenou para os assistentes que o olhavam boquiabertos. Num ápice a comitiva desapareceu noutra curva da estrada. O povo e os seus representantes debandaram desiludidos, cabisbaixos e sem dizer palavra.

Os aldeões regressavam a suas casas, com os chouriços, os presuntos e as gordas frangas que deviam presentear o senhor Presidente. O cabo Estevens despediu-se dos seus cantoneiros, montou a sua bicicleta e pedalou ansiosamente para casa de Rosaflor. Um dos seus homens ainda tentou avisá-lo do que lhe ia acontecer, mas não teve coragem. Gabriel G. Marques seguiu-o, cambaleante de muito bagaço. Alguns populares largaram ali mesmo as aves do Presidente e como uma tropa desordenada foram atrás do capador.

Quando o sol estava quase a esconder-se atrás dos montes mais altos, Donjoão Estevens desmontou a sua bicicleta de metal junto do quintal de Rosaflor e entrou directamente para a cozinha, onde já se sentia o odor a temperos campestres do jantar que iria compartilhar com a sua amante. Pouco depois chegou exausto pela marcha forçada em duas patas Gabriel, o capador, que perdeu o seu primeiro objectivo: esperar a sua vítima à entrada da casa do perjúrio.

Desorientado, dirigiu-se ao poço público de onde retirou um balde de água. Com o balde numa mão e faca na outra caminhou apressado para a a casa da vilipendiada irmã, gritando para que todos o ouvissem:

- O coelho escapou-me, mas vou tirá-lo da toca…

Quando o cabo Bonito (apenas de nome)da Guarda Nacional lhe perguntou porque tinha praticado tal acto, Gabriel G. Marques alegou defesa da honra da família e abuso de uma mulher só e desprotegida. O Bonito olhou-o com um ar perspicaz e pensativo. Depois tirou do dedo a aliança de casamento e colocou-a à frente do Estevens, pedindo-lhe para enfiar nela o seu dedo. O cabo bem tentou fazê-lo embora sem perceber a intenção, mas não conseguiu porque sempre o Bonito lha retirava do seu raio de acção. Então, como se diz, nos autos, o interrogador concluiu que nessas coisas de fornicação a responsabilidade é mútua. Perguntou-lhe ainda se estava arrependido do que tinha feito ao que o acusado respondeu com altivez dizendo que obviamente (palavra que gostava de utilizar desde a última campanha eleitoral) voltaria a defender a sua honra. O cabo Bonito perdeu a sua compostura militar, desenrolou o cavalo marinho e descarregou-o com toda fúria no lombo de Gabriel Marques, afirmando com ar ameaçador “ se voltas a tocar num pelo de um servidor da nação”, prendo-te como comunista e mando-te para o presídio de Peniche. Gabriel Marques assustou-se e balbuciou “isso não ,isso não”

Rosaflor disse no interrogatório ao cabo Bonito que não confirmava, nem desmentia o sucedido, frase que depois entrou no argumentário nacional sempre que não se quer falar de um assunto incómodo.

Já o Regedor confirmou que fora informado que o Marques queria capar o Estevens, mas que lhe tirara a faca a tempo de isto não se concretizar, como era seu dever de autoridade da nação.

João Cabreira, o vendeiro, afirmou que ouviu Marques fazer a ameaça, mas nunca acreditou que a cumprisse, pois até como capador de porcos “deixava muito a desejar”.

Quando Estevens entrou na casa onde ia ser enxovalhado Rosaflor corrigia os temperos da cabidela, enfiada numa camisa de nylon transparente e ao senti-lo aproximar-se disse:

- A carne está quase cozida….

- …Eu agora prefiro carne crua, retorquiu o Estevens, ao mesmo tempo que a agarrou e atirou para cima da cama de ferro forjado que estava ao lado da chaminé.

Gabriel G. Marques subiu para o muro do quintal com o balde na mão e a seguir alcandorou-se para cima do telhado de caniço.

Estevens e Rosaflor rebolavam na cama, tal e qual como quando saíram da barriga das mães, indiferentes a todo o bulício que vinha do exterior.

O capador, conhecedor da casa, percorreu com patinhas de gato o telhado até ao sítio pretendido, levantou umas telhas e despejou o balde de água fria em cima dos dois acalorados amantes, que primeiro sentiram um arrepio por todo o corpo e depois olharam para o tecto apavorados, enquanto Gabriel Marques .sussurrava entre-dentes:

-Vou-tos tirar grande filho da puta.

Rosaflor empurrou o amante para fora da cama, balbuciando.

-Foge, Donjoão, senão este tarado ainda te capa.

Estevens saiu apressado, montou a sua bicicleta sem a sua farda de funcionário da República e pedalou com toda a força que as suas pernas, só protegidas por frondosos pelos, conseguiam aplicar.Gabriel Marques saltou do telhado com a faca de capador nos dentes e correu atrás do ciclista amancebado, mas as suas pernas não o conseguiram acompanhar. Parou para não deitar os bofes pela boca, de onde já caíra a faca, dizendo com voz arrastada: um dia ainda te limpo o sebo.

O da bicicleta continuou freneticamente a pedalar, escondendo as suas vergonhas do escuro da noite e da faca afiada do capador falhado.

domingo, 3 de janeiro de 2010

ano novo?

Começa hoje o ano de 2010 de acordo com o calendário gregoriano. Todo o mundo,ou quase, aproveita o evento para cumprir um ritual de passagem, cujo significado se resume, nas sociedades modernas, a uma prática lúdica e eivada de oportunismo comercial.
As nações valentes e imortais não se balizam nestes formalismos mediáticos de curta duração, mas antes numa permanência que se estrutura num tempo sem limites temporais. Ainda assim e porque não somos imunes aos costumes e tradições dos povos, aqui deixamos, os votos de Bom Ano, com o desejo que os valores humanistas se sobreponham ao egocentrismo.