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quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

Boas Festas

O Natal enquanto dia de paz, de harmonia, de concórdia, de reunião familiar, de simbolismo do nascimento de Jesus "é todos os dias, é quando um homem quiser". O Natal dos pinheiros enfeitados, das renas, dos pais natais, do consumismo é a 25 de Dezembro.



Que cada qual escolha o seu Natal. Daqui, do blog Nação Valente ,deixo os meus votos de bom Natal, para hoje e todos oas dias.

24 de Dezembro de 2009.

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terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Desabafo cinéfilo

Desabafo cinéfilo
Le Soupirant, em português O Apaixonado, de Pierre Etaix, é um dos filmes da minha vida. Vi-o numa sala de cinema nos anos 70.Hoje não é possível rever este e outros filmes do referido realizador, realizados na década de 60. Um imbróglio juridico priva os autores dos seus direitos e proibe a divulgação dos seus filmes.Esta decisão está a condenar ao esquecimento cinco dos mais originais filmes do cinema francês, nomeadamentr Yoyo, restaurado em 1967. Grandes cineastas como Woody Allen e Claude Lelouch já assinaram a petição que circula na Net pedindo a reposição da obra de Pierre Etaix. Se é apreciador de bom cinema não fique indiferente perante este crime de lesa cultura. Assine esta petição através do link :http://www.lesfilmsdetaix.fr

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tags: cinema, cinéfilos, filmes, petição, pierre etaix, woody allen

Histórias da aldeia com escritores pelo meio

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Sábado, 12 de Dezembro de 2009
Histórias da aldeia com escritores pelo meio.



Dança de danados com cadeiras

Manhã

Aquele sábado de fim de primavera amanhecera escuro e chuvoso. Parecia que o céu, com o seu cortejo de nuvens prenhes como odres, se ia abater sobre a terra seca e faminta de água. Às da manhã nasci da cama com os primeiros raios de sol que se esparramavam pelas frinchas das janelas sem as lentes de vidro que nos protegiam dos ataques do suão sibilante. Procurando esconder-me entre os xarogaços raquítios para não ser visto por algum fedelho que me atazanasse com a minha inapropriada alcunha “ eh gato”, desci com todas as pernas que pude arranjar a íngreme vereda que separava a casa dos meus avós, onde tinha cama, comida e roupa lavada . Dirigi-me como uma bola saltitante para a casa dos meus atarefadospais para não me esquecer que eles continuavam a afazer peso na face enlameada da terrra. Ia a meio do sinuoso percurso, cantarolando a canção, então em voga “só às paredes confesso”quando se abateu sobre os meus ombros de pardal mal alimentado uma carga de água de pedra, que me molhou que nem um pinto , mais assustado que galinha visitada por raposa. Nunca tinha visto ou imaginado uma coisa assim. Até pensei que aquela fosse um principio doapocalipse, de que a jovem Célia, branca e pura como as imagens de madeira e tinta dos altares, falava com a sua boca decorada com um excitante tufo de pelos ruços, nas sessões de catequese, entre a missa dominical e o namorico com João sapateiro.
O certo é que o esgarrão da minha angústia foi tão depressa quanto veio. As nuvens barrigudas como barriga de burra prenha sumiram como o joio pelos buracos de uma peneirae , escampou, e um sol brilhante como o pitromax da venda do senhor joão iluminou as pitorescas casas da aldeia.
Dirigi-me , com a dignidade de Zapata diplomático para a casa do meu primo Ricardo, dois anos mais novo, com quem dividia as brincadeiras de infância. Quando as águas do dilúvio libertaram as margens dos caminhos sinuosos e formaram caudalosos riachos de água e lama comecei a engendrar barragens que os impedissem de se instalar no aconchegante leito da ribeira Ricardo transportava nas suas mãos sapudas de eventual cavador as pedras com que iria construir a sua vida sem futuro e eu juntava lama para cimentar a nossa inocência campónia. E enquanto víamos o pequeno riacho deslizar das nossas mãos como cobra de água, ouviu-se de repente o ronco de um altifalante de muitos decibéis, que silenciou a melodia produzida pela água no seu contacto, ora brusco ora acariciante, com as pedras e a terra por onde deslizava, não segura, em direcção à ribeira.” De quem eu gosto, nem às paredes confesso…”: Tinha chegado à aldeia o cinema ambulante.
Uma alegria rara e pouco frequente fez-me estremecer como se tivesse sido vergastado por uma vara de zambujeiro verde. Deitei fora os bocados de lama que segurava nas mãos, esqueci-me do quotidiano salazarento, das reguadas diárias na escola do estado novo e do meu utilitário primo. Sabia que nessa noite iria assistir, no salão de bailes do senhor Armando, a uma sessão de imagens animadas com os meus avós que eram cinéfilos de boa cepa. O mesma alegria não contagiou o meu primo Ricardo. A sua família não era gente desses pequenos luxos no seu mourejar diário por uma côdea de pão.
Tarde
. Na camioneta da tarde que todos os dias trazia alguma ausência e levava alguma saudade, desembarcou a tia Susana e seus dois moços pequenos. Raramente visitavam a família na aldeia.
Viviam longe, lá para a lezíria do Tejo, onde batalhavam pelo pão nosso de cada dia, como tordos que batalhavam para roubar uns grãos aos espantalhos que guardavam as searas do pai. Na casa dos avós houve muita satisfação. Matou-se um galo capão e a avó, cozinheira sem escola mas com tarimba, fez um suculento arroz de cabidela. O avô, avalizado bebedor nas vendas da aldeia, fez questão de regar o jantar com um forte vinho caseiro, guardado para ocasiões tão especiais como o nascimento de um bezerro de vaca leiteira. Depois de enganado o estômago o avô disse:
-Está na hora de irmos ao cinema. Já fui pôr as cadeiras no melhor lugar do salão do senhor Armando. Os dois aparvalhados primos maternos, não disfarçaram a seu contentamento e como barbos saltitantes no cesto da pescaria lá foram estrada fora com o cortejo familiar rumo ao mundo das ilusões perdidas.
Noite
. O pequeno gerador que dava luz à máquina de produzir ilusões fazia-se ouvir entre os sussurros dos ansiosos assistentes. Lobo Antunes, o projeccionista remendava uma fita que se partira durante a rebobinagem. Os moços pequenos que os pais tinham soltado, como pardal que dera a monte, acomodavam-se no chão sujo e frio, à frente da primeira fila de cadeiras.Robim dos Bosques, o Herói desse dia preparava-se para entrar em acção, com o seu bando de ladrões que só roubava aos ricos mas que não deixava por isso de ser ladrão.Ao dirigir-se ao local onde havia plantado as cadeiras o avô verificou que uma delas tinha fugido do seu lugar, encostando-se a uma parede da sala. No seu lugar, outra cadeira, coisa estranha, suportava o rabo mirrado, como azeitonas de sal ,do José Carola, agricultor, dono de cavalo de cobrição e ferrador da aldeia. O avô , que fervia em pouca água, avançou para o Carola, como besta picada pela mosca.
- Ó seu grande cabrão, então você roubou-me o lugar?!
-Não roubei lugar nenhum, disse o Carola mais atarantado que burra assustada com a ferramenta do cavalo cobridor. Este lugar estava virgem quando eu cheguei.
- Acha-me com cara de tanso, é? A minha cadeira já aí estava , e embora tenha pernas, ainda não sabe andar- retorquiu o avô. Levante-se e retire o cu dessa cadeira nojenta ou racho-o já ao meio.O Robim já cavalgava pela densa floresta, o João Pequeno atirava dez soldados e o sherif com as suas cavalgaduras por um barranco abaixo. Menina Mariana estava na janela do castelo em estilo carochinha sabidona “Quem me quer tirar daqui, nem que seja para uma união de facto”.
O Carola continuou colado ao seu assento, desafiador e confiante na sua razão, mas pouco tempo esteve de pé, pois o avô assentou-lhe a mão sapuda no focinho, dando-lhe uma chapada , que o fez estatelar-se da sua cadeira, derrubando como pedras de dominó, alguns espantados e incautos espectadores, no lugar errado à hora errada.O Robim talvez com fome de mulher aventura-se, é esse afinal o seu papel, no castelo com Mariana à janela, mas é barrado pelo malvado xerif. Robim , num daqueles truques que se aprendem no cinema, atinge-o bem entre as pernas: -Toma cão danado - embora o uivo do infeliz, mais parecesse de lobo que de cão ao mesmo tempo que piscava o olho triunfante ao avô.
O Carola, ainda só pai de filharada ranhosa, alto espadaúdo e seco de carnes levanta-se tão rápido quanto permite a lei da gravidade, agarra o avô, bem mais portátil, pelo colarinho da camisa, que se desfez em pedaços, como cantarinha de barro a estatelar-se no chãoO João Pequeno, que afinal até é grande, entra com o seu bando num solar de um titular amarra-o aos pés da cama e saca-lhe as economias escondidas no colchão de penas, o que não deixa de ser uma boa acção, porque o povo está esfomeado de comida e de justiça.
O avô escapa das mãos calejadas do ferrador, agarra uma cadeira e enfia-lha desde o poiso dos piolhos até à arrecadação dos chatos. Outros espectadores são envolvidos no reboliço e rebolam, nas suas cadeiras desengonçadas. Os meus primos olham espantados e a sua mãe ,mais angustiada que peru na véspera de natal está desolada. Já a prima perdeu o casaco na confusão e chora baba e ranho, como é próprio da sua idade.Os soldados do xerife atiram Robim para o fosso do castelo e este depois de rebolar mais de dez metros levanta-se mais fresco que uma alface na brisa matinal. Mariana que assiste à cena de camarote deixa fugir uma lágrima furtiva.
De repente a fita parte-se e a sala fica mergulhada na escuridão. De repente a pancadaria pára e as pessoas procuram acomodar-se nos seus lugares. As lâmpadas acendem as suas íris incandescentes- INTERVALO- e o projeccionista Lobo Antunes remenda a história e procura remediar os estragos. José Carola volta a acomodar-se no seu lugar, mais amachucado que talega de azeite na prensa. O avô recusa-se a mudar e, espumando de raiva, assiste à sessão de pé, funde-se na parede da sala, evapora-se numa nuvem de indiferença. A avó, a tia e os primos, e esperam receosos pelo fim da aventura.As imagens de sombra e luz voltam a ganhar vida na parede branca do fundo da sala. Continuam as cavalgadas, as espadeiradas, as emboscadas, os suspiros de Mariana, o castigo dos apoiantes do rei João…THE END.
A ilusão chegou ao fim. Ordeiramente os espectadores abandonam a sala, carregando as suas cadeiras de sofrimento e vazio sem ilusões perdidas ou renascidas. Entre o burburinho da saída e o barulho do dínamo, o projeccionista, Lobo Antunes , rebobina o filme e murmura para o fuinha de cigarro apagado ao canto da boca desdentada e que o ajudava a desmontar a máquina que fabricava imagens na solidão do escuro:
-Estes cabrões são uns selvagens…Aproveitaram o facto de eu tirar a cadeira para colocar o altifalante, para perturbarem o meu espectáculo. Não volto a esta terra de merda e de miseráveis brigões.O magricela enrolava os últimos fios e estendia no chão duro de ladrilhos a manta onde havia de passar a noite com o cigarro apagado a saltitar no som dos seus roncos sibilantes. Robim no sossego do celuloide foi finalmente descansar Amanhã é outro dia. Na cama ao lado de Mariana como um irmão bem comportado dorme a sono solto. FIM


tags: aldeia, cinema, danados, dança, dança com cadeiras, escritores, ilusão, lobo antunes, robim dos bosques

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Histórias da aldeia com escritores pelo meio

A chocalhada

Aparecido Cavaco, o “ladeira abaixo”, tinha os dias contados quando apareceu na aldeia com os pulmões roídos pelo bicho da tuberculose. Mas contra todas as previsões do senso popular, deu um pontapé na danada e de um dia para o outro ficou rijo que nem um pêro. Tinha abandonado a aldeia quando lhe despontavam os primeiros pelos na borbulhosa cara, para fazer pela vida. Fixou-se de armas e bagagens reduzidas, dizia-se à boca pequena, lá para os lados das salinas de Alcácer. Por lá viveu até ser homem feito e por lá juntou os trapinhos com uma moça da ribeira do Sado. E não fora o ataque dos malfadados bacilos, por lá se teria enraizado para sempre, longe da aldeia onde lhe nasceram os primeiros dentes.
Para o bem ou para o mal e por causa da doença ou do destino que lhe fora traçado voltou à sua terra de origem para lutar contra a impertinente tuberculose. Quando apareceu na aldeia, onde quase já tinha sido esquecido, dizia-se com todas as bocas, ou seja, pequenas e grandes, que no clima húmido e melgoso do vale do Sado deixara mulher e três filhos menores. Também se dizia que a suposta mulher deixada o deixara antes a ele, entregue à sua sorte e à voragem dos bichos que o comiam, com medo de ser contaminada pelo mal que o devorava, pois nem todas as criaturas de Deus são heroínas.
O certo é que, o nosso bem Aparecido se veio refugiar, corria nas folhas do Borda d’Água o ano de 1952, debaixo das saias da sua velha mãe de quem tão cedo se separara, mas que voltava a precisar para renascer. A senhora Perpétua, boa e extremosa mãe, como todas as mães deste mundo e do outro, recebeu-o com alegria, O meu menino, disse, voltou doente mas vivo - haja esperança e há-de curar-se. Parece que só ela acreditava nesse milagre e não se enganou! Aparecido, remoçou, voltou a ganhar novas cores no rosto macilento, voltaram-lhe as forças aos braços definhados e subiu-lhe o ânimo até ao limite que era o céu.
A sua mãe, Perpétua Bordeira atravessara a pé toda a serra do Espinhaço do Cão para vir juntar a sua vida com a de Serrenho Cavaco, homem trabalhador e muito empreendedor, como era apanágio do clã dos Cavacos. Juntos montaram um pequeno negócio, trabalharam que nem bestas de carga, criaram vários filhos e com muito labor amealharam bom pecúlio. Quando Serrenho Cavaco duplamente esgotado pela dura labuta do dia a dia e pela tarefa noctívaga de fazer filharada, se foi desta vida, descontente por ir tão cedo, deixou a desconsolada viúva ainda capaz de romper meias solas e com um pé de meia suficiente para lhe garantir uma velhice sossegada. Foi a esse pé-de-meia que Aparecido recorreu para refazer a sua nova vida, A mãe podia adiantar-me algum dinheiro para eu abrir uma venda? Pois meu filho, sabes que podes contar sempre com a ajuda da tua mãe, muito contente por te voltar a ter junto de mim, ao mesmo tempo que suspirava de alívio por ver que o filho não voltaria a partir. Assim montou Aparecido a sua venda de batatas, coiratos, aguardente, muito vinho e outras miudezas. É certo que os seus irmãos não ficaram satisfeitos com esta generosidade materna para com o filho pródigo, mas Aparecido fez orelhas moucas a alguma maledicência que atribuía a esse sentimento ruim que se chama inveja.
Depois de um dia a encher copos de vinho, assar coiratos ou aviar meios litros de petróleo, Aparecido recolhia ao seu quarto e sentia-se só. A única consolação era os serões passados na casa do seu tio paterno, Augusto Cavaco, que fazia questão de o receber como um filho. Ali sereavam sempre, acompanhados pela filha dos seus tios e por força das convenções parentais sua prima-irmã, de nome Helena Anunciada, uma mocinha tão jovem quanto graciosa, de corpo bem feito, feições regulares e uns olhos de azeitona madura. Era a única e muito adorada filha de Augusto e da sua segunda mulher, Rita Odemira e que chegara a este mundo já no ocaso das suas vidas. Aparecido era para os seus tio como o filho que nunca tiveram e para Helena o amigo com quem compartilhava a sua solidão de filha única e a quem via, segundo as aparências, como um irmão muito mais velho. Aparecido foi ocupando a solidão da moça e apagando a tristeza que derramava dos seus olhos, que na sua presença brilhavam com a intensidade da estrela de alva. Para Augusto a presença do sobrinho trazia alegria e nova vida aquela casa e quando este tardava nas suas visitas ficava inquieto. Já é tarde e o Aparecido ainda não chegou? Será que lhe aconteceu alguma desgraça, dizia preocupado. Ora pai, desdramatizava a filha, às tantas hoje teve mais trabalho.
Numa noite quente de Agosto o calor na casa térrea de Augusto atabafava. O serão no pátio corria melhor que a brisa de vento que tardava em chegar, para refrescar os corpos e as mentes. Aparecido e a sua prima Helena trocavam palavras pouco perceptíveis e olhares lânguidos e suspeitos, não passaram despercebidos à matriarca Rita Odemira. Alguma coisa estranha pairava no ar e não só pelo comportamento dos dois primos, mas porque lho sugeria o seu sexto sentido feminino., Aparecido, que se passa, pareces-me esquisito... Ora tia, foi um dia muito cansativo, por isso acho que me vou deitar. Estou a precisar da companhia das palhas da enxerga, até amanhã tios, boa noite prima .Boa noite Aparecido disse Helena com uma tremura na voz e um aperto no coração, pois aquela iria ser a primeira das outras noites da sua vida, a noite em que a seu destino se uniria ao de Aparecido, dando corpo a um amor escondido em serões e serões infindáveis.
Na manhã seguinte Augusto foi o primeiro a levantar-se como sempre acontecia e achou estranho que a porta do quarto da filha estivesse aberta. Não era costume acontecer. Pé ante pé foi espreitar e o que viu quase que lhe partiu o coração. A filha não estava na cama, tão serena e arrumada como um pego sem corrente.
A essa hora já corria de boca em boca que o Aparecido se tinha juntado com Helena Anunciada. O espanto era geral e ninguém queria acreditar. O pai da moça primeiro ficou pior que gato em telhado de zinco quente, depois começou a acordar como se estivesse a viver um pesadelo sem sentido e finalmente caiu na realidade louca que era a puta da vida. O traidor ingrato enganou-me e destruiu a minha família, mas vai pagar-me, ai vai. A mãe de Helena quando soube do improvável evento, caiu redonda com um chilique e teve de ser reanimada com um copo de aguardente e duas estaladas na cara, como era costume por aquelas bandas. Entretanto a moça já tinha entregado a sua pureza à sedução do primo. Depois de passado o choque inicial, Augusto dirigiu-se ao palheiro prenhe de palha, pegou numa forquilha de dentes afiados, montou a velha mula ruça e cavalgou a toda a pressa de forquilha em riste, porque urgia vingar a sua honra e a desonra da filha. Diz quem viu, que das patas do animal saía fogo quando pisavam violentamente as toscas pedras da calçada que desenlameava as mal traçadas ruas da aldeia. A sua ira era maior que a torre sineira da igreja por onde passou, sem se aperceber da sua presença secular.
Os dois amantes ao tomarem conhecimento de tal acção, temeram pela vida ainda mal iniciada e tremiam que nem varas de loendros verdes ao vento agreste de terras de Espanha, pois desses lados, nem bom vento, nem bom casamento. Foi então que vinda de uma noite mal dormida, acordada pelo frenesim que crescia à sua volta, Perpétua Bordeira, extremosa mãe, tia e agora sogra, ainda em trajes menores disse para os dois incestuosos primos, Fiquem onde estão que eu vou resolver isto.
A populaça convencida que ia assistir a uma bom sarrabulho, já se posicionava estrategicamente procurando o melhor lugar para assistir ao desenrolar do novelo. Uns empoleirados nos muros, outros, mais ousados, estendidos nos beirais dos telhados e os mais descarados, cosidos contra as paredes íngremes das casas da ladeira. Já Perpétua se tinha colocado no meio da rua tal como saíra da s asas de Morfeu, longa camisa de burel a tapar a nudez, própria de uma verdadeira mulher de respeito. Com a primeira arma que lhe veio à mão, o penico ainda rescendendo aos fluidos nocturnos, o grisalho cabelo desalinhado pela dureza do travesseiro de palha e pelas agruras da vida, esperava pacientemente pela sanha do cunhado, equilibrando o seu corpo roliço na aspereza do declive da rua.
Ao entrar no lajeado inclinado da ladeira, a besta, a de quatro patas, talvez assustada com aquela visão algo dantesca, como um Adamastor saído de uma noite mal dormida (coisa diferente na mente do animal, que não sabia de história), estacou de repente e atirou o cavaleiro borda fora, estatelando-o nas frias e duras pedras da calçada. O animal, o de duas pernas, caiu desamparado e o estoiro foi tão forte que se ouviu nas até nas consciências mais empedernidas. Impulsionado pelas leis da física, embora sem o saber, Augusto rolou rua abaixo até junto aos pés descalços e à ira da dama enfurecida, Fica quieto, não te mexas, senão descarrego-te este bacio de merda em cima da tua casmurrice ,disse Perpétua, agora sogra e futura avó, brandindo com mão firme a improvisada arma. Augusto, assustado, dorido desarmado e vencido, levantou penosamente o que restava da sua dignidade e balbuciou, Por agora ganhaste, velha megera, mas isto não fica assim, Isto promete, disse entre-dentes um anónimo personagem.
Chegou a vez dos aldeões enquanto personagens secundárias , entrarem nesta história Um a um foram-se juntando até formarem magotes no largo principal, até porque era domingo e o tema alimentava a curiosidade das gentes sempre ciosas de um bom escândalo que sacudisse a pasmaceira de um dia a dia sempre igual. E de entre os sussurros e as críticas mais acesas, levantou-se a voz de Saramago, Mestre Escola, sempre ouvido e respeitado na sua superior sabedoria. Puxou dos seus galões e num discurso beato e patrioteiro exortou, na sua pronuncia beirã, os campónios à indignação, Esses dois adúlteros ofenderam as leis da santa Igreja, ofenderam a pátria e os seus valores, ofenderam a família e a sua autoridade e cometeram três grandes pecados , mancebia de homem casado, união contra-natura entre primos de sangue, desonra das suas famílias. Axim merecem um castigo imediato já que o pecado maior será castigado na hora do julgamento final, Ide agora a vossas cazas e trazei chocalhos das vossas bacas e dos vossos vois, pois bamos fazer uma grande chocalhada. A meio da tarde juntou-se o povo munido do s respectivos chocalhos, e acompanhado de muita moçada, divertida com este espectáculo inédito e lá foram rua abaixo gritando e vociferando ao som tilintante e metálico dos adornos, dos pachorrentos e inocentes animais.
Alguns familiares dos chocalhados, acantonados atrás de portas e janelas ainda tentaram reagir, mas a turba era assustadora. Apenas uma irmã mais assanhada de Aparecido, abriu timidamente um postigo e atirou um a bacia cheia de água suja sobre os divertidos protestantes. E por ali ficaram os protestos populares contra aquela união que desrespeitava a moral e os bons costumes.
No dia seguinte a vida voltou ao seu ritmo normal naquele povoado de país pobre mas honrado. Os dois primos, e agora marido e mulher, continuaram juntos e foram muito felizes. Helena emprenhou três vezes, e pariu três fortes rapazes. O tempo sarou as grandes feridas e o clã dos Cavacos voltou a ser unha com carne. Aparecido prosperou nos negócios e chegou até a ser Regedor da freguesia. Quando o regime deu um trambolhão da cadeira, Aparecido que já fora homem de duas mulheres, não se importou de ser homem de dois senhores e apressou-se a enviar um telegrama de apoio com o timbre da Regedoria ao rosto do novo regime.

Um dia, igual a tantos outros e enquanto Aparecido aviava meio litro de petróleo a um freguês e Helena media meio litro de feijão careto a uma freguesa e a mais nova cria do casal que ainda mijava nos cueiros, dormia a sono solto numa alcofa ao lado do balcão um cliente, sapateiro de profissão, comentou, Está ali a dormir um futuro Ministro. Os presentes, esticaram a boca, cada um à sua maneira, mas com o riso bem espetado entre as orelhas. Não sei se o dito sapateiro brincava ou se falava a sério, mas o certo é que desde o de Trancoso que os sapateiros tem jeito para a profecia.

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

histórias da aldeia

Um dia de anos
No dia em que ia fazer onze anos José acordou, como sempre acontecia, com a luz matinal que de mansinho escorria pelas frinchas do caniço. A tenebrosa escuridão que o mantinha escondido, entre a enxerga e o cobertor, ia desaparecendo tal como os medos que à noite lhe povoavam a mente.
Percorreu ensonado o corredor que o levava até à pequena cozinha da casa dos seus avós com quem vivia por opção. Da esculateira desprendia-se o aroma do café de cevada que todas as manhãs lhe aconchegava a barriga. Sentou-se na acanhada e tosca mesa. A avó Maria, alta, magra, quase esfíngica, colocou numa tigela de barro as sopas de café, cheirosas e fumegantes.
O avô José Carpinteiro, pequeno mas maciço, regressou da sua ida até à venda do Serafim, volta que dava todas as manhãs para “matar o bicho”. Olhou para o moço e disse:
-Hoje vamos pescar p’ra a ribeira. Temos de apanhar peixe para fazer uma assada. O neto ouviu e após um breve silêncio retorquiu timidamente:
-Mas eu não sei pescar, nem tenho cana de pesca. José Carpinteiro saiu da pequena cozinha de pedra solta e passados breves minutos regressou com duas canas de pesca.
-Aqui estão as canas - disse. Pega na tua e vamos partir. Temos uma longa caminhada pela frente.
José Carpinteiro e o neto partiram em direcção ao local da pescaria. Calcorrearam as margens da ribeira durante cerca de três quilómetros. O moço nunca tinha percorrido aquele caminho Observou as cores policromas da vegetação ribeirinha Ouviu os sons dos barrancos a correr e os cantos matinais dos pássaros. Assustou-se com o resmalhar dos pequenos arbustos. Seria a manhosa raposa ou a sibilina cobra? Mas sentia-se seguro junto do seu avô.
Chegaram às Pernadas, sítio onde se juntavam duas ribeiras, que tinham decidido unir-se para enfrentaram com mais coragem a sua entrada no grande rio. O silêncio quase assustava. Não se via vivalma. Afinal era domingo., dia de descanso. De repente, a silhueta de uma figura humana desenhou-se no horizonte. Quem será? - pensou José A figura tornou-se cada vez mais nítida. Não tinha sapatos e vestia uma roupa suja e gasta. José pensou que seria mais um pescador solitário, pois trazia consigo uma cana de pesca.
- Bom dia - disse o homem.
-Bom dia - respondeu o avô. Será que temos peixe?
O homem fez um gesto enigmático e continuou o seu caminho. José Carpinteiro olhou para o neto e comentou:
-Hoje só temos a companhia do “descalço”.
“Descalço” era uma pessoa estranha àquela pequena comunidade rural, embora nela se integrasse temporariamente. Era caldeireiro de profissão e todos os anos aparecia com as chapas e martelos. Arranjava tachos e panelas, fazia tabuleiros de lata, e depois partia, tão discreto quanto chegara com os seus parcos haveres. Ficava apenas a sua sombra: os pequenos trabalhos, os poucos proventos, a aparente boa disposição, quando ao fim do dia o vinho escorria sem cessar pela sua goela.
Os dois pescadores instalaram-se num pequeno terraço, junto à margem e preparam-se para iniciar a pescaria. José notou que a água estava ludra mas serena. José Carpinteiro carregou os anzóis com minhocas e explicou ao aprendiz de pescador como devia proceder.
-Quando o peixe picar e esticar o fio, puxa logo a cana!
José, tinha esperança que os peixes o ignorassem. Não se sentia nada seguro. Atirou o fio para dentro de água e esperou. Quando a cana estremeceu puxou-a. Agarrado ao anzol vinha um peixe prateado que se contorcia para ganhar a liberdade. José tentou agarrá-lo, mas era escorregadio e viscoso. Soltou-se da sua minúscula mão, procurando freneticamente voltar para casa. E teria voltado, se o avô não o tivesse apanhado com a sua mão forte e sapuda. Era um belo exemplar de barbo, escamas largas e douradas. Brilhava ao sol. O avô pô-lo no velho cesto de cana.
Para o pequenito aquele peixe parecia uma prenda impossível. Era como se tivesse a missão de dar-lhe os parabéns pelos seus onze anos.
O avô voltou a alimentar-lhe o anzol. O moço lançou-o de novo para o pego. Outro peixe picou e a cena repetiu-se… O cesto enchia-se com os reluzentes barbos.
Ao seu lado o avô lamentava-se: - Na minha cana não pica nenhum…
-Deixe lá avô, já apanhámos bastantes.
O “descalço” voltou a passar junto a José Carpinteiro e ao seu neto, com ar cabisbaixo e desiludido, remordendo entre dentes:
- Vou-me embora. Hoje não consigo apanhar nada. Parece que os malditos se zangaram comigo.
-Pois comigo também - respondeu-lhe José Carpinteiro. Só picam na cana do moço. E têm razão. Afinal ele é que faz anos!
Quando a hora do almoço se aproximava, regressaram a casa com o cesto bem atulhado.
A avó Maria juntou uns cavacos e fez uma fogueira nas traseiras da casa. Logo que as labaredas se cansaram de crepitar, o avô pôs os peixes numa grelha de ferro, sobre as brasas. De vez em quando remexia-as, fazendo-as reviver por entre o nada do fogo.
José, seguia a cerimónia com ansiedade. Crescia-lhe a água na boca a pensar no esperado pitéu. Finalmente o avô anunciou:
- Estão prontos. Vamos a eles!
Vá-se lá saber porquê, José não voltou a pescar. Do gosto do peixe já não se lembra, mas guardou na memória aquele dia como o início de um novo tempo na sua vida.

terça-feira, 15 de setembro de 2009

MFL e as amplas liberdades

O rasgo de rasgar
Com ou sem inspiração salazarista, MFL especializou-se em asfixiar. E como por aqui já está tudo asfixiado,
é altura decomeçar a asfixiar os espanhóis. Por este andar ainda passa os Pirineus. É um caso de estudo, esta senhora

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

José Gil ganhou espaço na pantalha comunicativa com uma tese, divulgada em livro e chamada o medo de existir. De uma forma geral a sua teoria assenta no pressuposto, se a memória não me de que a indiossincrazia da nação portuguesa se alicerça no medo. Perdõem-me a ousadia, pois nem sou filósofo encartado, mas eu acho que essa indiossincrazia a existir não se alicerça no medo, ms antes no não-medo.



E para comprovar isso basta recordar alguns momentos fundamentais da história de Portugal:

A fundação do estado português é o melhor exemplo, pois toda a vontade de ser independente dos barões de Entre Douro e Minho não seria concretizável sem áudácia , coragem e a determinação de enfrentar a poderoso império de Afonso VII. A mesma determinação está presente na luta contra a moirama do sul para alagar o território e o tornar viável. E Afonso Henriques não receia dar voz de comando a esse desejo de existir como país no contexto difícil de uma península cada vez mais hegemonizada pelo centralismo de Castela.



O outro grande exemplo da audácia portuguesa está patente no periodo complicado que se vive após a morte de D. Fernando, E a sobrevivência de Portugal como país e a partir de então também como nação alicerça-se numa aliança popular , caldeada num querer continuar a existir como nação e como povo autónomo. Sá a coragem da chamada arraia-miuda, convence o indeciso bastardo D. João a enfrentar e a vencer o poderoso estado castelhano numa luta desigual, como David contra Golias.Aljubarrota é , sem dúvida o simbolo da e que o não-medo maneira de estar do povo Português,



E que dizer da veia conquistadora e descobridora, com as suas glórias e misérias, da gesta lusitana.?Que povo intrinsecamente receoso teria avançado pelo mar desconhecido e desafiado o poderoso Adamastor?



Como teriam quarenta conjurados destituído os representantes do governo de Castela sediado no país e imposto de novo a soberania nacional, sem audácia de querer existir fora do domínio do invasor?



E D. joão VI foi prudente ou medroso, quando manteve o leme da nação nas suas mãos e não se entregou aos caprichos do imperador Napoleão? Foi com medo de existir que se expulsaram do país, por três vezes as disciplinadas tropas francesas? Com ajuda, é certo , mas com a vontade indómita de NAÇÃO VALENTE E IMORTAL, a única que se manteve coesa , viável e independente, numa península castelhanizada. Apenas porque sempre quis existir.

domingo, 23 de agosto de 2009

Desabafo sobre um despedimento em directo

Desabafo sobre um despedimento em directo
Hoje assisti num monólogo televisivo sobre futebol a uma coisa inédita. Eu assisti, ao despedimento , em directo, do treinador Paulo Bento por um comentador desportivo. E assisti, pasme-se, à apresentaçâo do perfil do novo treinador do Sporting, pelo mesmo comentador.

Pergunto: como é que numa estação de televisão, honesta e responsável, são permitidas tais "alarvidades", mascaradas de opinião livre? (P`rás audiências vale tudo?)



Pergunto mais: se o Sporting passar a eliminatória com a Fiorentina ,o comentador(?) deve ser dispensado do programa?

Pergunto ainda: quer o dito senhor pagar a indemnização que diz ser de um milhão de euros ao treinador?



Depois desta "alarvidade", permito-me , também, responder, com modéstia( pois não tenho acesso a grandes púlpitos), alarvemente ,sem aspas e com a mesma desilegância:



Como diz o ditado popular: os cães ladram a caravana passa e (é a minha convicção) o Paulo Bento não será despedido e o Sporting será campeão

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

Força Rui

ferias

Made in Academia

defende e marca

Sporting sempre

Hoje tive notícias do meu Sporting. Com muita sorte, mas também com muito labor, com muita vontade e muito querer, mereceu passar esta eliminatória.E vale a pena salientar que jogou com oito portugueses, sendo sete made in Acadamia. E passou mais um dia sem fazar nenhuma aquisição sul-americana. Chama-se a isto ter os pés bem assentes na terra. E tudo é possível.Viva o desporto honesto e saudável.

Sporting sempre

segunda-feira, 3 de agosto de 2009


Notícias de aquem-mar

Cá estou no deserto(Lino dixit). Longe das notícias das bombas,dos chutos na pelota,da crise,da gripe, dos fait-divers,das inventonas de Louçã, do vale tudo de Portas. Só sei que nada sei(Sócrates ,o verdadeiro). Não sei quem ganhou o torneio de Guimarães(não o do Henriques), não sei se os Açores já são independentes, não sei se Portugal ainda é país,não sei se a senhora Guedes Moniz criou algum facto real, não sei se inventaram mais algum túnel para Lisboa.
Não sei , nem quero saber. Contento-me a ver a água,
a correr nos wads,as cigarras a cantar nas searas,os grilos a grilar nas noites estivais, o silvo da ventania a cortar o silêncio da natureza. Deleito-me a ver as coisa rudes na sua simplicidade, a marcha natural do tempo, liberta de do tic tac das máquinas reguladoras, enquanto escrevo no infinito estas desbragadas linhas para ir alimentando a solidão do meu blog, fio que me mantem ligado a dita civilização dos media.

domingo, 2 de agosto de 2009

Desporto

O futebol continua na primeira linha das nossas preocupações. Proliferam os torneios de preparação. Fazem-se transferências milionárias ou nem tanto.Os jornais desportivos criam factos. Nos debates televisivos, sumidades , fazem previsões. Tudo a bem do bom povo.A nação pode esperar.

PS - Qual será a próxima aquisição do Sport Lisboa e Benfica?

Férias

sábado, 1 de agosto de 2009

Férias

Este é um mês de férias, lugar comum e conceito com vários significados. Para uns será descanso, relax. Para outros será canseira , stress, numa qualquer estância de veraneio. Para alguns, menos, viajar pelas miragens modernas, propaladas pelas agências de viagens. Para certos personagens, trabalho, trabalho...as eleições estão aí.
Mas em Agosto a labuta continua, o mundo gira , a opressão não é interrompida, a pobreza não hiberna...é a outra face da moeda.
Hoje ,que já estamos de férias, abrimos este espaço, para reflectir, para opinar, para discutir, para estar presente,sem pretensiosísmos, na construção de uma sociedade mais justa, mais fraterna, mais solidária.
Abordaremos , com frontalidade, assuntos do quotidiano, da política, do desporto, da cultura... Assim as musas nos inspirem e nos ajudem e a judem todos os que o desejarem a ter umas férias plenas.